sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Eu juro que menti por amor


Durante os anos em que ficamos juntos, apesar de eu ter prometido – diversas vezes – que só diria a verdade, em várias ocasiões eu menti para a mulher que amava – e que ainda amo. Menti mesmo, confesso!
Para ela – aquela que revirou as minhas tripas quando partiu de madrugada, e que, até hoje, não devolveu o meu ferro de passar – eu menti bem mais do que para as tantas que passaram pela minha vida, mas que nada – não que eu saiba! – levaram de mim.
“Mas se você a amava, como fez questão de enfatizar no primeiro parágrafo, por que mentia?”, vocês me perguntarão, inconformadas com a minha confissão que, por enquanto, parece apenas um exemplo de contradição, mas que, até o fim do texto, vai se transformar no mais verdadeiro relato de um afeto raríssimo, capaz de eclipsar qualquer tipo de egoísmo e assassinar orgulhos quase imortais.
Você, por acaso, sabe a razão que me fez mentir a ela? Então, se puder, peço que ainda não comece a perfurar esse boneco voodoo com a minha cara. Eu posso explicar: eu menti por amor e porque precisei vencer a vaidade desnecessária dela! Não justifica? Tem certeza absoluta disso?
Eu mentia quando dizia que preferia a insossa clara do ovo e que não estava nem aí para aquela coisa deliciosa que chamam de “gema”; e só agia assim por saber que ela, se por acaso descobrisse a verdade acerca de minha preferência, nunca teria aceitado as tantas gemas que eu troquei pelos sorrisos que ela me dava sempre que via um sol extra – e mole como ela gostava – magicamente pousar sobre o arroz dela.
Eu mentia quando dizia que conseguiria – sem precisar deixar as minhas coisas de lado – ajudá-la com as apresentações de trabalho que a afogavam em rios de preocupação.“Cabeção, não se preocupe. Eu já terminei os textos de hoje e agora estou livre para fazer uma apresentação de PPT capaz de matar o Spielberg de inveja!”, eu mentia, com cara de herói, só para vê-la voltar a respirar, e decidido a colocar sobre as minhas costas o peso que eu odiava imaginar esmagando a felicidade dela. E para ela, mesmo que tomasse todo o meu dia, que me fizesse pular o almoço e que me obrigasse a ler densos textos sobre assuntos que eu adiava, eu montava apresentações mil vezes melhores do que a mais caprichada que havia feito para mim. E depois de vê-la saltar de alegria, de senti-la espalhando beijos pelos mais improváveis cantos do meu rosto e de ouvi-la me agradecendo, freneticamente, por ter salvado a vida dela, eu mentia, mais uma vez: “Boa noite, amor! Agora eu vou dormir!”. Grande mentira! Porque em vez de fechar os olhos, eu enchia a caneca com um café bem forte, ligava o computador e varava a madrugada escrevendo aquilo que, de acordo com os e-mails furiosos do meu chefe, já deveria estar no ar.
Eu mentia quando fazia a mesma expressão de indiferença que Chuck Norris faz quando mergulha em um lago congelado, e, graças à minha insistência e aos bolsos da calça que escondiam o roxo dos meus dedos, eu conseguia convencê-la a vestir o meu casaco e a acreditar que eu não sentia frio. “Mas não combina com a minha roupa?”, ela dizia, tentando sair pela tangente. “Claro que combina! Hoje mesmo eu vi uma modelo vestindo um casaco igual, no metrô.”. “Mas você tem certeza de que não ficará com frio?”, ela perguntava. Então eu respirava fundo, controlava a vontade de deixar a mandíbula tremer e mentia mais vez: “Claro que não. Estou até com um pouco de calor!”. E, se quer saber, mesmo tendo beirado a hipotermia, foram as melhores “friacas” que passei.
Eu mentia muito e, como já era de se esperar, certa vez fui pego em flagrante: a sombrinha que ficava em meu carro era muito pequena para proteger, simultaneamente, duas pessoas, então eu, propositalmente, deixei a cobertura um pouco mais para o lado dela. “Não estava chovendo em você?”, ela me perguntou. E eu, como já era costumeiro, menti: “Não, nenhuma gota!”. Porém, quando entramos no shopping, minha mentira, graças à metade molhada e mais escura da minha camiseta, veio à tona. E no dia seguinte, para me obrigar a mentir mais uma vez, a gripe tomou conta de mim. “Você acha mesmo que eu fiquei gripado por causa daquela chuvinha de ontem? Claro que não! Anteontem eu já estava sentindo a garganta arranhar e a testa esquentar.” Tudo mentira! Menos o amor, claro.
Eu menti, até, acredite se quiser, na última vez em que nos vimos. E talvez tenha sida a maior das mentiras – se é que existe forma de medir o tamanho das mentiras. Ela, antes de sair de vez da minha vida, tentando não cruzar o olhar com o meu e visivelmente ansiosa para a chegada do elevador, fez uma última pergunta, temendo que eu voltasse a beber ou que perdesse o prumo: “Você promete que ficará bem e que vai se cuidar direitinho?”. “Prometo!”, eu menti como se fosse imune a qualquer pontapé no coração, antes de ficar mal e de começar a descuidar de mim.

E se um dia, arrependida por estar com alguém que não mente nunca, ela me ligar e perguntar se eu estou com saudade da verdade que vivemos, eu, para afastá-la do mentiroso que sou, mentirei. Ou será que devo falar a verdade?

Texto de Ricardo Coiro para o site Catwalk

4 comentários:

  1. Adorei o texto!

    Beijos.

    Jéssica
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  2. Realmente, o Ricardo Coiro é incrível!
    Bjo querida!

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  3. Parabéns, querida, gostei muito do texto, quando comecei a ler, pensei que era com você.
    Gostaria de te dizer que to outro blog, um blog em que, me identifique muito, pois gosto muito de escrever,refletir sobr eo que leio, pois agora ja sei qual é o verdadeiro, ato de expor nosso pensamentos, como você, tem uma bom pensamento, e correr sempre atras de seus objetivos, te passo o link pelo, face, pois não acho apropriado passar o link pelo comentário, pois irar parecer, um divulgação para seus visitantes, não gosto disso, tenho que conquistar meu leitores através do que escrevo e não por divulgação em outros blogs. tchauuu amiga. Bom Domingo.

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  4. Que lindooooo! Um homem que escreve assim, vale apena, viu? kkk
    Bjo!

    Anne

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